A medida do meu coração

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Leia ao som de R.E.M. | Everybody hurts

Muitas histórias de amor já foram escritas, e a minha poderia ser só mais uma. Muitos finais já foram escritos, o do meu amor por Eva não foi inédito, mas com certeza, foi o mais real que pude escrever.
O começo de nossa história não foi com nosso encontro, pelo contrário, foi com os desencontros que tivemos ao longo da vida. Quando Eva entrou em minha vida eu já tinha muito mais a contar do que apenas sonhos, tinha bagagem, passado. Estava saindo de um relacionamento turbulento, cheio de conflitos em que me acostumei com o lado possessivo e controlador de uma pessoa. Ela não acreditava mais no amor e eu não me lembrava que ele existia.  Era impressionante ver como alguém como ela dizia não acreditar no amor, logo ela, que era todo amor, a mais doce, encantadora e apaixonante mulher que eu poderia encontrar. As dores que ela havia enfrentado, rejeição, abandono, mentiras, e traições, fizeram com que simplesmente deixasse de acreditar no amor simples, puro, verdadeiro entre duas pessoas.

Sou médico e perdi as contas de quantos sábados passei de plantão na clínica. Nem sempre tinha movimento, afinal de contas, hospital de interior não pode ser comparado ao Salgado Filho. Para ocupar meu tempo, aproveitava os plantões mais calmos para responder aos e-mails enviados durante a semana. Max é um excelente ortopedista, e não perde a oportunidade de fazer piadas com o Flamengo, e havia mandado um email durante a semana para ridicularizar os flamenguistas pela derrota contra o Fluminense, para diversos contatos de sua lista. O que me surpreendeu não foi a implicância do Max comigo, já que sou flamenguista, me surpreendeu a única resposta feminina ao e-mail ter sido de Eva. Ela “gastou” os flamenguistas com sua resposta e me senti impelido a enviar um e-mail respondendo tais afrontas. Assim nos conhecemos. Eu achava que ela fingia entender de futebol e ela me taxava de flamenguista convencido. Depois de uma semana nossos e-mails deixaram de ser apenas sobre futebol, começamos a falar sobre músicas, e livros, sem nunca perguntar algo além do que era escrito na mensagem. Era como se tivéssemos criado um código tácito de preservação. No sábado seguinte, já em casa, enviei um e-mail falando sobre o livro que terminara de ler naquela semana. Menos de cinco minutos depois, recebi a resposta de Eva e resolvi arriscar ao enviar uma nova mensagem perguntando se ela gostaria de conversar comigo no MSN. Ela me adicionou e conversamos durante cinco horas seguidas. Nossa conversa era leve, divertida e eu tinha a impressão de já conhecê-la a vida inteira. Desliguei o computador naquela madrugada completamente apaixonado.
As semanas foram se passando e o fato de estarmos separados por centenas de quilômetros (eu em Campos/RJ; ela em Maringá/PR) não diminuía o que sentia. Conversávamos todos os dias, trocávamos mensagens telefônicas, e-mails, e juras de amor.  Éramos dois apaixonados, bobos, namorados que nunca se viram. . Falta de seu sorriso, de seu jeito espontâneo e livre de ser. Sentia falta do que poderia ser ao lado dela.  Certo dia lhe enviei flores e uma mensagem dizendo que sabia como é difícil entender, eu sinto falta sem ao menos conhecer seu cheiro, o sabor de seu beijo, o calor de suas mãos, mas naquele momento, entender era totalmente irrelevante, eu apenas sentia, e me apaixonava mais a cada ligação, a cada dia, e sentia falta de estar perto dela. Sabia que o que tínhamos era diferente, sabia que a amava. Eu não tinha coragem de perguntar ao Max o que ele achava dela, o que sabia de seu passado. Como explicar que estava mantendo contato com alguém que nunca vi e, que por coincidência, recebeu a mesma mensagem que eu? Soube por ela, tempos depois, que Max era amigo de infância de sua irmã, estudaram na mesma classe quando ele ainda morava no Paraná e retomaram contato através do Orkut.

Depois de seis meses de muita conversa, contas absurdas de telefone, e uma urgência terrível que eu sentia da pele daquela mulher, resolvi viajar para sua cidade. A ansiedade era tão grande que me sentia um menino, um adolescente que se apaixonou pela primeira vez. Desembarquei no aeroporto de Maringá com o coração na boca e milhares de dúvidas que me deixavam atordoado: “E se ela não vier? E se o encontro não for como imaginamos? E se...” Eram tantas dúvidas que começava a achar menos doloroso se ela não aparecesse para me encontrar.

Quando cheguei ao saguão, avistei uma mulher distraída olhando para o portão diferente do que desembarquei, vestindo uma camisa do Fluminense e segurando outra do Flamengo com certa timidez. Era ela. Quando seus olhos fitaram os meus, já estava perto o suficiente para perceber que ruborizou. Era Eva. Quis correr e beijá-la, saciar a minha sede dos lábios da mulher que me encantou, me enfeitiçou. O abraço veio primeiro. “A gente se apertou um contra o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro.” Perdi a noção do tempo enquanto estava abraçado a ela. Acariciar os cabelos ondulados e macios, sentir o cheiro da pele recém saída do banho, perceber o arrepio ao passar os dedos por sua nuca... Eram carinhos inéditos, ensaiados milhares de vezes por nós dois e a realidade era infinitamente melhor. Eva estava comigo e eu sentia sua pulsação, provei o gosto de seus lábios, e a ouvi sussurrar meu nome.

Foram dias inesquecíveis. Vê-la em família, conhecer seus amigos, andar de mãos dadas pela cidade e ver as estrelas deitados na grama do quintal era tão natural, ao mesmo tempo tão significativo que temíamos estar sonhando. O momento da despedida chegou e nunca havia experimentado um gosto tão amargo quando o de deixar Eva para trás. Queria viver para sempre ao seu lado, mas era preciso voltar para o Rio.
Era preciso retomar a vida e encontrar formas de trazer Eva para perto de mim. Os dias não eram fáceis, as noites ainda piores. Nada mais tinha tanta importância. Sonhava em construir nossas vidas juntos. Pela primeira vez na vida, me sentia amado, valorizado, importante para alguém. Eva mudou meus conceitos, me deu muito mais que a vontade de viver, me mostrou motivos para viver por e com ela. Eva me ensinou o que é amar por completo.

Nossa história poderia terminar ali, naquela frase e você pensaria que desci do avião e me atirei em seus braços, ou que ela pegou o vôo seguinte e vivemos felizes até hoje, mas a realidade não é tão bela quanto nos filmes de Hollywood. Se você está lendo este texto hoje é porque ainda tento, em vão, eu sei, a minha remição. Quando me vi tão envolvido, tão absorvido por Eva, temi. Fui um completo covarde. Deixei de atender suas ligações nem respondia suas mensagens. Tive medo. Muitos homens não admitiriam que sentem medo, mas eu admito: senti medo daquela ruivinha dominar meus passos. Tive medo de me tornar refém do amor de uma mulher. Depois de algum tempo ela deixou de ligar, não deixava mais mensagens, desistiu de mim.

Três ano se passaram e eu voltei a Maringá. Me enchi de coragem e decidi fazer de tudo para conquistar o perdão daquela que não consegui esquecer. Fui até a casa dela, sem flores nas mãos, pois não queria parecer piegas ou exagerado, ou ela poderia pensar que era pura falsidade. Eu pude avistá-la de longe no quintal, de vestido branco e cabelos na altura dos ombros. Estava sorrindo tanto que imaginei que pudesse estar sorrindo para mim. Enquanto caminhava para seu portão, vi que um homem a abraçou por trás e levou suas mãos em direção ao ventre dela. Congelei. Não conseguia dar um passo a frente. A cena que se seguiu ficou muito clara: Eva construiu a vida que sonhei ter com ela, ao lado de outra pessoa e eu nada poderia fazer. Tive vontade de morrer, me atirar da primeira ponte que visse pela frente, faltou ar nos pulmões e boca secou completamente.

Um dia desses tive coragem de perguntar ao Max sobre ela. Acabei contando tudo o que vivemos e descobri que ela sofreu muito por um homem misterioso, e que encontrou tranqüilidade e alegria ao lado de outra pessoa. Max mal acreditava que o tal homem misterioso era eu. Eu não acreditava que havia perdido a mulher de minha vida por medo. 

Talvez a cartase desse amor não seja a mais bela história de amor já escrita. Sei que existem “finais alternativos” no cinema, mas a vida real não admite ensaios. A vida real não permite erros tão tolos quanto o meu. Sofro todas as noites quando lembro seu sorriso, do calor de seu abraço, a forma como nos completávamos, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Sei que minha absolvição não virá através dos livros publicados, ou das cartas nunca enviadas para Eva, mas ao passar adiante, ao tornar pública a minha vergonha, tenho a sensação de aproximá-la de mim outra vez, sinto que poderia reescrever meus passos. Eva faz parte das minhas melhores lembranças.
Minha história poderia ser só mais uma história, dessas que você encontra em qualquer esquina, em 
qualquer cidade, mas a saudade e o arrependimento são hoje, a medida do meu coração.


____________________________________________________________
Texto vencedor da 63ª edição do OUAT e do Projeto texto do leitor


3 comentários:

  1. Nossa,o que a incerteza faz com cada um de nós... Também era assim, sentia muito medo de ser feliz, mas apartir do momento que me conscientizei que a felicidade dependia do meu desprendimento de esteriótipos romanticos,pude viver plenamente o amor real (aquele que tem defeitos e problemas)

    Amei Ana o Post,

    Um Beijão,

    Ass:

    Mª Susana

    ResponderExcluir
  2. "Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase."

    Essa frase foi o divisor de águas da minha vida em 2010. Bendita hora em que li esta crônica. Não me tornei a pessoa mais experiente do mundo nem muito menos a mais bem resolvida, entretanto descobri e entendi que posso desconstruir e ao mesmo tempo reconstruir os meus muros. Aprendi que amar alguém não é crime, se tolher sim é um verdadeiro crime. Hoje, não tenho a pessoa amada da forma que gostaria, mas tenho a certeza de que não sou mais escrava e capacho do medo. Os pedaços que foram deixados ao longo do caminho, durante o tempo de escravidão, os recuperei, e agora, estou completa e sou parte de um todo. Percebi que não é o mundo quem me constrói sou eu quem o reconstruo.

    ResponderExcluir
  3. Oi Ana, Ta lindo seu blog!
    Vc é demais!!!
    Que Deus te ilunime mais e mais para continuar com essa garra toda e sabedoria!!!
    Abração, Sumara!

    ResponderExcluir

 
FREE BLOGGER TEMPLATE BY DESIGNER BLOGS