segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Tempo - o senhor da razão

"(...) o tempo é generoso, o tempo é farto, é sempre abundante em suas entregas: amaina nossas aflições, dilui a tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos que vivem nas trevas, o ânimo aos indiferentes, o conforto aos que se lamentam, a alegria aos homens tristes, o consolo aos desamparados, o relaxamento aos que se contorcem, a serenidade aos inquietos, o repouso aos sem sossego, a paz aos intranquilos, à umidade às almas secas".

Lavoura Arcaica, Raduan Nassar, p. 58-59


domingo, 27 de fevereiro de 2011

A decepção não mata, mas produz dores terríveis na alma


"Eu sou essa gente que se dói inteira porque não vive só na superfície das coisas." Marla de Queiroz



Ao som de Linger, The Cramberries



Semana passada experimentei as diversas faces da decepção e (re)conheci as dores que ela causa. Não estou falando de decepção amorosa, nem sempre os coraçõezinhos saem voando pelo monitor. Falo daquela decepção das brabas, do tipo que você ouve barulho de vidro quebrando e sabe que é a imagem que tinha da pessoa partindo em caquinhos. Decepção do tipo que desestrutura sua próxima ação, pois até ali você tinha certeza de que teria alguém COM e não CONTRA você.
Me recuso a acreditar que no mundo vai vencer sempre quem é o mais esperto, aquele que usa como regra a lei da vantagem (ou ‘farinha pouca meu pirão primeiro’). Mas eu sei por que estou sentindo tanto esse tombo: confiei demais em quem não deveria. Mesmo sabendo que eu devo depositar TODAS, T-O-D-A-S, as minhas expectativas no Senhor, e não nos homens, eu confiei.
Eu falho muito, erro em questões bobas, constantemente eu peço desculpas por algo que falei, deixei de fazer ou fui além do que deveria; sei que decepciono aqueles que estão a minha volta, mas quando tomo consciência disso, reconheço a falha e procuro amenizar o estrago. E quando a pessoa que te magoou finge que se importa e a verdade não é bem essa? Peço desculpas aos meus queridos leitores se pareço deprê, mas eu não consigo escrever algo diferente do que estou sentindo de forma tão latente. Estou com raiva de ter errado em uma coisa tão simplória, ainda mais quando meus instintos estavam gritando: “Não é esse o caminho, Ana Santos. Você vai se estrepar lá na frente, esta amizade não é tão verdadeira quanto você pensa...” É, meus instintos (tem outro nome?) estavam tentando me mostrar a verdade desde a semana do Natal, mas quem disse que eu dei ouvidos? Outro dia li por aí sobre alguém que resolveu não se iludir mais com os cacos de vidro que encontrou pelo caminho pensando ter diamantes nas mãos. Eu pensei ter encontrado um diamante: eterno, valioso, e melhor amigo da mulher, mas na verdade tinha encontrado só mais um caco de vidro. 

Ser feliz era o plano

      
Liguei o rádio do carro e não estava na estação que costumo ouvir logo pela manhã. A música que estava tocando me chamou atenção: “Dos nossos planos é que tenho mais saudade. Onde está você agora além de aqui dentro de mim? Agimos certo sem querer, foi só o tempo que errou. Vai ser difícil sem você aqui porque você está comigo o tempo todo.”
Como num filme, meus pensamentos me levaram para perto das lembranças mais doces que tenho da época em que éramos mais que dois corações perdidos a procura de um porto. Sacudi a cabeça na intenção de remover os pensamentos, mas de nada adiantou. Meus olhos ficaram úmidos, e tentei me lembrar de que nem todas as histórias de amor recebem um final feliz. Eu não consegui fazer você feliz, e a frustração me faz doer lugares que eu não sabia que existiam em meu corpo.
Eu te dei tudo o que eu tinha, apostei todas as fichas, tudo o que conhecia, em nós. Acreditei que seriamos realmente felizes, mas a realidade é bem diferente da que imaginava. Talvez eu tenha confundido os sinais, ou então só absorvi o que era interessante naqueles momentos em que estávamos juntos. Mas que tola eu fui! Restaram-me às fotos, as lembranças, pedaços do que éramos. Ficou a lacuna, o espaço que você ocupava todo o tempo. Sinto falta da disposição, dos momentos de alegria, da palavra de apoio e incentivo. Preciso me acostumar a viver sem você. Fui tudo o que você precisava, estava segura em seus braços e agora meu mundo está ruindo.
Pode ser que com o tempo eu me acostume com a ideia de seguir sozinha, existem tantos caminhos, tantas possibilidades, mas era tão bom saber que você estava ali para me dar a mão, para me fazer traçar novos rumos. Vejo a loucura estender as mãos para mim e meu coração sangrar. Sinto-me num intenso inverno, sozinha, gritando sem que alguém me escute. Você me fazia ver a vida com outros olhos, até mesmo os erros cometidos. Desaprendi a andar sem você. Não sou mais parte de sua vida, ficarei guardada em seu relicário de conquistas.
Tenho em minha memória cada dia de nossas vidas juntos, cada sorriso, cada lição que aprendida ao seu lado. Acreditei que, depois de tantas peças pregadas pela vida, estaria imune, não sofreria tanto, mas está mais difícil do que imaginei. Levantar pela manhã e não chorar é quase impossível. Não me reconheço mais no reflexo do espelho.
Sinto tanto a sua falta. Sinto falta das suas palavras sempre tão doces, de seu jeito estressado de cuidar de mim, seu carinho, enfim, sinto uma imensa saudade de você. Fiz o que tinha que fazer, lutei, entrei numa guerra que era pra ser de e por nós dois. Mesmo caída, dilacerada, lutei por nosso amor. Agi certo sem querer, tenho certeza, que foi só o tempo que errou.

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Texto para a  58ª Edição Musical - Bloinquês