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Sobre Nuggets, amor e algumas loucuras

Sábado à noite, frio danado lá fora e me bate uma vontade louca de comer Nuggets. O ruim de ficar sozinha é que não dá para pedir que alguém compre pra você, se a vontade é incontrolável o jeito é levantar da cama (tão quentinha!) e ir ao mercado.

Lá vou eu, jeans e blusa de manga comprida porque o frio realmente não está facilitando a minha empreitada. Lembro que tenho que providenciar a casinha de Belinha antes que o inverno chegue pra valer. Lembro que muitos estão desabrigados e me sinto uma idiota em pensar na minha cachorrinha. Penso que sou uma idiota de ficar brigando com meus
próprios pensamentos. Sacudo a cabeça e resolvo cantarolar algo mentalmente: “você me veio como um sonho bom e me assustei...” Sou interrompida, pois alguém resolve me lembrar (gritando “meennngooooo”) que amanhã tem jogo do Vasco contra o Flamengo (argh!).

Cumprimento os funcionários do mercado. Amenidades, perguntas simpáticas e caminho até o açougue. Nuggets e nada mais - esqueça a mania de dona de casa, mantenha o foco e resista às promoções. “Você não precisava demorar tanto no corredor das massas”, pensei. Mas já era tarde, já estava com o fusili nas mãos. Pensando na combinação de temperos e molhos, ouço meu nome. “Ué? Minha consciência tem voz masculina e sotaque?” Não. Minha consciência às vezes fica muda, ainda mais quando se trata de comprar/cozinhar massas (sem a menor modéstia, minha especialidade!).

- O que estás fazendo aqui, menina?

(Será que não parece óbvio? Sábado à noite, no mercado o que eu poderia fazer? Compras. E com o frio, compras emergenciais, afff) Resolvo não ser tão “óbvia”.

- Luca, quanto tempo. Estou garantindo que meu armário não morra de solidão!

Neste momento minha amiga tão querida e reluzente surge com melão (argh!) em uma das mãos e na outra um vidro de azeite extra virgem (Yes! Nós gostamos de azeite extra virgem. Lembro que eu também tenho que comprar – tenho? É, agora que eu vi, fui lembrada, então eu tenho!). Como o frio torna as pessoas elegantes. Botas e calça pretas, blusa de gola role grafite. Elegante e com um sorriso digno de comercial da Colgate.

-[gargalhando] Jurava que ele já havia morrido...

Ela me conhece a tempo suficiente para saber que eu gosto de cozinhar, mas só quando eu estou a fim. Essa história de cozinhar só pra mim ou por obrigação, me dá nos nervos. Gosto de cozinhar quando sei que irão apreciar meu prato, ou quando já faz mais que uma semana que eu não faço fumaça em casa. Com essa minha rotina de chegar tarde em casa, os lanches se tornaram melhores amigos. Acho que foi por isso que estranhei o cheiro de comida caseira quando cheguei em casa ontem. (Por falar nisso, a sopa estava maravilhosa! Mamãe se supera a cada dia!)

- Ele esteve em coma, mas sobreviveu sem seqüelas. [Luca sai à procura de morangos. Alguém tenha a bondade de contar que não estamos na estação desta frutinha maravilhosa!] E aí, como estão às coisas?

- Ótimas minha amiga! (o sorriso parece ter ficado ainda maior!)

- Nadine, eu não sabia que você tinha tantos dentes. Onde você os arrumou? [muitos risos]

- Parece que encontrei meu sorriso no Luca. Eu nunca me imaginei tão feliz e isso me assusta. Tem horas que chega a me dar medo de tão feliz que eu estou!

- Como assim “medo”, cara pálida? Como alguém vai ter medo de ser feliz? Bateu a cabeça?

- É que parece um sonho. A forma como nos conhecemos, a maneira como nos apaixonamos, a distancia que nos separa... Tínhamos tudo para não dar certo.

- Mas está dando certo, por que se preocupar?

- Ele é diferente de tudo o que já vivi. Ele é maduro, divertido, sabe o que quer da vida e já vive o que escolheu. Tem histórias para contar e adora me contar todas elas. É carinhoso, me dedica toda atenção possível e é extremamente romântico. Gosta de coisas que eu também gosto e se deu super bem com minha família.

Juro que se tivesse como fotografar minha expressão nesta hora seria algo do tipo “então você realmente bateu a cabeça!” Até o final do ano irei providenciar uma máquina para carregar em todos os lugares, inclusive no mercado!

- Era neste momento que eu deveria entender o porquê você está com medo? Putz, vivi um momento loira!

- Você não entende porque eu tenho medo de que seja muita felicidade para uma pessoa só. Tenho medo de acordar e descobrir que me iludi, que ele na verdade tem um segredo terrível, que me enganou, que era “mentirinha”. E se ele voltar pra Portugal e nunca mais voltar? E se eu descobrir que ele é casado, ou se ele realmente for e eu nunca descobrir?

- Já ouviu falar que aqui perto tem um hospital psiquiátrico?

- Eu não estou louca, estou com medo! Com medo dessa felicidade não ser pra mim. Vai que alguém se enganou e mandou o cara que era pra outra pessoa, pra mim? Eu não vou devolver. Já passaram os 7 dias pra devolução! Reclame no Procon. [risos]

- Nadine, minha louca predileta... Eu entendo que para uma pessoa que viveu de enganos, um amor que se apresenta assim numa noite que você não tinha pretensão nenhuma, a não ser fazer uma viagem tranqüila, deve assustar um pouco. Mas pense que ele é exatamente o que você esperava que fosse. “Ele é seu número” e você quer devolver?

- [me interrompendo] Eu não quero devolver!

- Então porque esse medo? Aproveite esse homem que Deus te deu de presente! Você aporrinhou a paciência dEle dizendo que queria porque queria alguém que te fizesse feliz assim e agora você está em dúvida se ele é ou não o que você procurava? Fala sério! Eu não teria paciência para te aturar. Primeiro quer porque quer alguém que a valorize, quando recebe diz: “eu não mereço tanto”.

- Você sempre tão gentil e delicada.

- Praticidade, minha cara. Você merece essa felicidade. Ele também. Aliás, todo mundo merece “a sorte de um amor tranqüilo, com sabor de fruta mordida...”

Gargalhamos. Decidimos ir ao encontro de Luca. Na verdade, eu decido batalhar pelos Nuggets. Cada uma para um lado do mercado, agora reclamo de ter que pagar R$ 5,80 numa caixinha de 300g. Decido que irei pagar, afinal de contas, estou com vontade e não voltarei para casa sem eles.

Já no caixa, Nadine se aproxima deixando Luca no corredor de materiais de limpeza e me abraça.

- Você tem razão, eu tenho direito de ser feliz, de viver esse amor. Obrigada!

No caminho para casa, fico pensando no que chamei de loucura. Nós, seres humanos, quase sempre as mulheres, passamos uma vida inteira desejando algo e quando o desejo se torna realidade, ficamos com medo, nos enchemos de dúvidas. Créédoo! Nem Freud poderia explicar (ou poderia?). Fico com mais uma de minhas teorias: queremos a todo custo transformar o “faz de conta” em realidade, e quando a vida real começa, temos medo de que alguém diga “Rá rá, pegadinha.”

Mas quer saber, Nadine? Só tem um jeito de saber se é sonho demais para o seu caminhãozinho: VIVENDO! O máximo que pode acontecer é você ter muitos sorrisos para estampar!

Ps: Não sei se Nadine teve coragem de contar pro Luca que não tem morangos nesta época do ano, ainda mais num mercadinho de bairro!
Ps2: Nuggets de queijo e presunto: bom demais !
Ps3: Amar sem medos é melhor ainda !! Viva amiga, viva!!

Comentários

  1. Garota,
    vc é demais mesmo.
    Olha no q se tornou uma simples ida ao mercado???
    Acho q to precisando encontrar com vc no mercado também.
    kkkkk

    Deborinha

    ResponderExcluir
  2. Ah... Quanto tempo...Sua narrativa é ótima...
    Também estou em fase de grandes decisões...
    Abraços....

    SAUDADES...

    FERNANDO RAMOS

    ResponderExcluir

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