terça-feira, 30 de março de 2010

O amor não é óbvio


Você pode ler ao som de Eduardo e Mônica

A mulher de seus sonhos se parece com a Penélope Cruz e o príncipe encantado dela sempre foi o Denzel Washington, mas eles sabem que a vida real é bem melhor que os delírios da imaginação.
Ele se prende a números, ela a felicidade de cada momento. Ela se preocupa com os vizinhos, ele ignora a existência deles. Ela pensa no que é para sempre, ele somente no “eterno enquanto dura”. Ele gosta de abacaxi, mas não esquece que ela é alérgica.
Ele adora sertanejo e não gosta de MPB, mas quando viajam juntos, escutam Djavan. Ela adora a cidade, o barulho, lojas de departamento, teatro, cinema e chopp com os amigos toda sexta-feira; ele prefere o silencio, a calmaria (que ela chama de pasmaceira) e segurança do interior. Ela pensa em filhos aos 35 e inventa teorias sobre como criá-los; ele é categórico em dizer que não existe teoria que substitua a prática. Ele sabe exatamente aonde quer chegar com sua carreira enquanto ela pensa em viver pela paixão por sua profissão. Ela agitada, sempre falante e fazendo graça. Ele sério, concentrado e organizado. Ela chega e bagunça a mesa procurando algo que não está lá. Ele adora acordar tarde aos domingos, ela levanta cedo e faz barulho tentando manter silencio. Ele gosta quando ela veste rosa, ela prefere o azul. Ela gosta dele quando deixa a barba por fazer, ele faz a barba todas as manhãs. Ele nunca quebrou um copo sequer, ela quebra pelo menos um por semana.
Ele berra que a ama, ela prefere nem dizer. Ela quis saltar de parapente, mas teve medo. Ele não queria e saltou. Ela é temperamental, ele temperado.
Ele ri porque não consegue mudá-la, foi esse jeito de menina que trouxe alegria aos seus dias. Ela admira o seu olhar sério e independente. Ela os dias, ele as noites. Ele se dedica a conquistá-la todos os dias, seja com um telefonema às duas da tarde, bilhete no espelho, uma flor na bandeja do café da manhã ou indo buscá-la na faculdade. Ela alimenta essa paixão com seus olhares, sua voz macia e os carinhos constantes.
Eles adoram cachorros e ler juntos. Trocaram manuais de instruções e juras de amor. Compram uvas e flores todos os sábados. Desde o primeiro momento decidiram que não seriam almas gêmeas, seriam almas que se aceitam, se encaixam, se completam.
Eu desisti de encontrar a lógica que os uniu, o que fez com que dois extremos se encontrassem e não se deixassem mais. Aliás, como diria o poeta: “E quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?”

3 comentários:

  1. Uma resposta sincera

    Um amor de 33 anos, meus pais... dois seres tão diferentes nunca compreendi tamanho amor.

    Ele apaixonado por ela, sem hesitar em dizer e mostrar, ela louca por ele mas para mantê-lo se mantém comedida em seus impulsos de gritar pro
    mundo inteiro.
    Ele gosta da boemia, das luas, da música da dança. Ela gosta da quietude dos dias e das noites, literatura, Machado de Assis e boas maneiras na mesa, cama e banho. Ele gosta de banhar-se nu a luz da lua, ser excêntrico é sua naturalidade, chapéu de bamba, seu panamá, sapato com as formas da calçada de copacabana e a vida de malandro que lhe permite não ser tão sério e ser mais menino do que homem e negligenciar a falta de retribuição dos afetos que dedica com risos e implicância gratuita.
    Recebe da mesma maneira no trato no cuidado, na comida bem feita pra agradá-lo e em todos os mimos que requer. Ela está na terceira pós, ele
    parou no segundo grau e no primeiro emprego público e estável que conseguiu.
    Ele viveu de amor e música e ela vive de dor e lembranças.
    Devia ter dito aos berros o que sentia, devia ter tentado compreender o que decidiu não compreender. Mas agora jaz, agora é cinza, ela ficou com a melhor parte, um amor sem disfarces.

    Não sei o que faz um casamento durar, sei que não é paixão, pois a gravidade está aí pra despencar tudo menos a gengiva e não dá pra se atrair por rugas pra sempre. Mas tem outras coisas, o cotidiano banal que quando se altera pela ausência torna-se insuportável não tê-lo. É incrível observar o quanto coisas pequenas nos fazem falta e a maior diferença, um olhar trocado, um beijo não dado, uma conversa que ficou
    no ar, as cítricas conversas que infelizmente magoaram e fizeram chorar, mas também fizeram crescer. Um jeito único de olhar, de compreender ou de compreender que não compreende nada, simplesmente admitir suas falhas e recomeçar.
    O amor pode ser abnegação, mas acredito mais no compartilhar e dividir momentos, esperanças e sonhos, incentivar um ao outro a alcançá-los, a buscar o máximo que se puder ter.
    Acho que isso é o pouco que eu sei, que aprendi com a observação atenta.
    Foram felizes e isso hoje é muito embora pra muitos seja muito pouco.

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  2. Tocar a felicidade junto com alguém é sempre uma vitória, por um momento ou por uma vida!


    Rosangela

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  3. ai amiga... ainda não conheçi ninguém que me aturasse... será que eu consigo kkkk!!! brincadeiras à parte, bela analogia... adorei...

    Ass: Susana

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