O amor convém



Enquanto você dorme em meus braços, fico repassando os últimos dias. O pensamento vai longe, tentando me lembrar de quando nos apaixonamos antes mesmo de nos conhecermos de verdade. Quando nos beijamos, percebi que seria seu para todo o sempre. 
Conheço você de olhos fechados e não há nada que não ame ou não admire.  Amo cada centímetro seu: pintas, sardas, a curva do seu sorriso e a maciez das suas mãos; a forma como presta atenção em mim, como me faz rir e até sua irritação; seu cabelo solto, seu olhos brilhantes, sua maneira de "conversar" com cachorros. Amo quando me leva para algum lugar incomum, quando fala das coisas que acredita e o fato de ser tão apaixonada pela vida. Amo quando inventa motivos para ficarmos juntos, apesar da rotina; seu jeito de olhar a chuva e admirar a lua. 
Você, sempre tão forte, tão intensa, dorme calmamente em meus braços. Por favor, não levante ainda, quero te olhar um pouco mais. Pode deixar, protegerei seu sono, lutarei pelos seus sonhos, mas quero apenas agradecer ao Pai por ter me dado você, por ter sido o seu “sim”...


Ainda lembro da gente


Ao som de Costumes, Paula Fernandes





Preciso confessar que ainda lembro da gente. Coleciono perguntas não respondidas sobre o que fazer com o que sobrou de nós. O que devo fazer com as músicas que fizeram parte da nossa história? Nunca tivemos uma música apenas. Tínhamos uma playlist que descrevia nossos instantes. Será que terei que mudar meu gosto musical para não correr o risco de, acidentalmente, ouvir sobre nós através de uma canção? Como apagar da memória o som da sua voz? Por vezes você sussurrou meu nome, me fez sonhar e deu vida a palavras tão doces e marcantes. Como apagar isso? Ainda lembro do som da sua gargalhada e de como eu vibrava quando era o motivo dela. Qual é a fórmula para esquecer dos seus braços me envolvendo e prendendo junto a você?  Como faço para esquecer seu olhar antes de cada beijo, a mão deslizando pela minha nuca e o registro dela em minha pele? Sinto falta do que tivemos, mas principalmente do seu cheiro e da sensação de estar em seus braços, de me perder em nossas loucuras. Sei que você também lembra de nós, talvez até sinta saudades de como éramos felizes e inconsequentes quando estávamos juntos, mas somos orgulhosos demais para ignorar tudo o que nos afastou. Esta saudade recorrente, agravada pela chuva nas janelas, vai continuar com a gente, em silêncio. Não fomos feitos para ficar juntos, apesar de toda afinidade, de todos os momentos em que perdemos a cabeça ... Torço para que que o destino, por ironia ou maldade, jamais nos coloque na mesma calçada. Tenho certeza que seríamos gentis, polidamente educados, mas seria extremamente difícil disfarçar a falta que sinto do seu sorriso colado ao meu. 
Eu pensei que já nem me lembrasse de coisas passadas ...  

Finjo não saber




Leia ao som de Van Morrison, Someone like you

"Algum preço a gente tem que pagar quando resolve fingir que a vida voltou ao normal - quando não é nada disso que está acontecendo."

Para ela, admitir que talvez nunca passe foi a parte fácil. Difícil era lidar com a frustração misturada à vontade de esquecer as palavras duras que foram ditas. Sentia saudades da profunda ligação que existiu entre eles um dia, a mais intensa que vivera até então. Em alguns momentos sentia vontade de ligar e perguntar se a vida estava sendo gentil com ele. Por alguma maldição, encantamento ou mesmo bruxaria, ela o enxergava além do seu discurso frágil e mentiroso de bom moço. Ele parecia ser o único a entender o seu desprezo pelos batons e a relação entre tristeza e cabelos presos. Amavam a chuva. Juntos. Hipnotizados. Era música. Ainda é. Ela era furor e ingenuidade. Ele era um conjunto complexo e racional demais, principalmente para alguém tão passional quanto ela. 







A essência de cada um de nós



Para ler ao som de Lenine, Simples Assim

 
Vem cá, vamos conversar?
Quantas vezes você pensou em desistir e depois desistiu dessa ideia? Quantas vezes você olhou para a sua vida e teve a impressão de que se perdeu pelo caminho? Se nunca lhe ocorreu, tenho que dizer que somos muito diferentes, pois comigo foram incontáveis as vezes que joguei tudo para o alto e no dia seguinte eu estava lá, no mesmo lugar fazendo as mesmas coisas que me traziam infelicidade, ou apenas um desgosto profundo. Com o tempo a gente vai aprendendo que nem toda mudança é repentina, nem toda virada de mesa acontece no tempo que a gente quer. Grandes mudanças são construídas diariamente, com paciência e, em alguns casos, com muita frieza.
Há alguns dias retomei contato com dois grandes amigos de infância. É maravilhoso perceber que a essência da gente foi preservada, ainda que tenhamos enfrentado alguns dos piores perrengues da vida adulta. É interessante perceber que a distância pode sim afastar algumas pessoas, mas ela não apaga a liberdade que existe em ser verdadeiro, em poder se mostrar como realmente é, e não como a sociedade espera que você seja.
Durante um longo tempo achei que as mudanças que almejava não seriam possíveis, mas eu apenas olhava para o lado errado da estrada. Assim como o fio branco persistente (e inconveniente) que insiste em tentar estragar a uniformidade castanha dos meus cabelos, a mudança está sendo construída de modo a me mostrar que o tempo está passando e não sou mais uma menina. Se antes eu me desesperava com a ideia de ter perdido alguma coisa, por não ter percebido o tempo passar, hoje eu fico feliz em ter me conscientizado de que PASSOU. A estrada não acabou e talvez seja por isso que meus passos estejam estranhamente calmos.
Ao contrário do que eu havia me acostumado a ser, estou olhando com mais tranquilidade para tudo o que fiz e quem era. Estou aprendendo a ser menos cruel comigo e a ser grata por quem estou me tornando. Estar próxima a pessoas que me conheceram tão bem e estiveram em minha vida por tanto tempo tem me dado um certo conforto, uma espécie de tranquilidade ao perceber que, mesmo em meio a tantas transformações, um lado sempre permanece intacto, preservado. O que fica é a essência de quem realmente somos. É a partir dela que traçamos qualquer meta, que mudamos o que não combina com ela e nos perdoamos por erros cometidos.
 
Blog da Ana Santos Blog Design by Ipietoon